José Ramos – lembranças e amnésias (mais ou menos), projectos… e filosofias, após noites descansadas… mas, por vezes, não.
Avintes, 22 de Novembro
Ontem o dia esteve chato e cheguei às 10 da noite cansado (de quê?) e com areia nos olhos.
Fui p’ra cama a essa hora.
(Como, há muitos anos, utilizo um ventilador durante a noite, o teor de oxigénio no sangue vai sendo compensado e começo a ficar confortável.)
Após a noite bem dormida, “na cabeça” trazia a lembrança ténue de um facto ocorrido quando eu tinha, talvez, uns quatro/cinco anos.
Terá sido a primeira foto.
Minha mãe pegava em mim para me colocar sentado sobre uma pequena mesa, recomendando-me no meu léxico de então, postura bonita, pose, ao que eu reagia tentando esgueirar-me e fazendo “trombas” de menino mal disposto, se calhar, por não perceber ao que ia.
Já vencido, minha mãe passou-me novamente o pente no cabelo e recomendou ao fotógrafo que me pusesse bonito na foto, pois eu “era” muito feio e trombudo.
(Aquele “era” marcou-me por muitos anos e, junto a outros factores, determinou alguma timidez e afastamento das outras crianças. Até que o discernimento me fez compreender que para qualquer mãe, especialmente para a minha o “era” só podia significar “estava naquele momento”).
E o fotógrafo lá colheu a imagem na máquina de caixote.
Antes tinha feito os preparativos todos, com o ritual aparentemente complicado, como convinha. Agora chama-se “marketing”.
Fixei dois passos, que hoje percebo: a colocação da chapa com nitrato de prata e os cuidados para esta não apanhar luz, o que era conseguido com a utilização de um pano escuro que em momentos cobria a máquina, mãos e cabeça do fotógrafo; e o enorme clarão que se seguiu ao “olha o passarinho” que provavelmente terá dito, como era costume.
Essa foto, tive-a nas mãos há uns anos. Procurei-a hoje e não a encontrei. Oxalá a ache.
Se minhas filhas ou netos a encontrarem perceberão, pela “tromba”, de quem se trata.
Avintes, 23 de Novembro
Afinal encontrei, entre centenas de fotografias antigas que recebi e que ainda não estão organizadas, aquela a que me referi.

Parece-me que os traços fisionómicos se mantiveram, agora com as alterações determinadas pelos anos de vida intensa.










Passaria, facilmente para referências agradáveis ao verde das folhagens, mais dourado ou mais escuro conforme o sol e a sombra, ao cheiro da terra, das flores, dos frutos… e não acabaria …